Corte de internet vira instrumento de repressão cada vez mais frequente, diz executivo da Proton
Os recentes cortes de internet em países como o Irã mostram a tendência de alguns governos de sacar a arma do bloqueio total do acesso à rede para amordaçar a dissidência, alerta um responsável da empresa especializada Proton.
A Proton, empresa suíça conhecida por seus serviços de mensagens criptografadas e de rede privada virtual (VPN, na sigla em inglês), observa há anos como governos autoritários aplicam "a censura como estratégia" na internet, explicou à AFP seu chefe de produtos, Antonio Cesarano.
Com uma VPN, os internautas podem acessar com segurança um servidor, o que reforça o anonimato na rede e frequentemente permite contornar restrições locais de acesso à internet.
A Proton criou em 2023 o Observatório VPN, uma organização sem fins lucrativos que analisa a demanda por seus serviços e, assim, detecta de forma indireta casos de repressão governamental e violações da liberdade de expressão.
"Quando detectamos uma atividade anormal em nossa infraestrutura, podemos antecipar um acontecimento iminente", afirma Cesarano, porta-voz da Proton na luta contra a censura na internet e na defesa das liberdades online.
Como exemplo, ele cita "picos consideráveis de demanda" observados em países como Irã, Uganda, Rússia e Mianmar antes de campanhas de censura que costumam acompanhar a repressão.
Há anos, o Observatório estuda a atuação de governos autoritários que, diante de distúrbios ou protestos, decidem bloquear redes sociais, restringir o acesso à internet ou declarar ilegais as VPNs.
Pouco antes do último corte de internet no Irã, em 8 de janeiro, o Observatório constatou um aumento de 1.000% no uso dos serviços de VPN da Proton, o que indicaria que a população estava ciente de que o acesso à rede poderia ser restringido de forma iminente.
O uso de VPNs também disparou na Venezuela no início do ano, com crescimento de 770% nos dias seguintes à captura do presidente Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, segundo o Observatório.
Em Uganda, as assinaturas de serviços de VPN aumentaram 890% nos dias que antecederam as eleições realizadas em janeiro, de acordo com a mesma fonte.
- "Uma medida extrema" -
Segundo Cesarano, começa a se consolidar uma nova tendência: cortes totais de internet, usados "três vezes em seis meses".
A mais recente foi o megacorte imposto no Irã, onde mais de 90 milhões de habitantes ficaram sem internet por quase três semanas em janeiro, o que permitiu encobrir a repressão sangrenta aos protestos, que deixou milhares de mortos, segundo ONGs de defesa dos direitos humanos.
Ele também mencionou o bloqueio de uma semana em Uganda antes das eleições e a falha geral de telecomunicações no Afeganistão em outubro.
"Um corte total de internet é muito preocupante, pois é uma medida extrema", afirmou, destacando que esse tipo de ação praticamente paralisa a economia.
Cesarano acrescentou que alguns países aproveitam cortes prolongados para desenvolver capacidades de censura.
Por sua vez, David Paterson, diretor-geral da Proton VPN, apontou que esse desenvolvimento repentino dessas capacidades pode indicar que alguns países estão "vendendo" essa tecnologia de censura "como um serviço".
"Nos últimos dois anos, constatamos o uso da tecnologia chinesa do 'grande firewall' por Mianmar, Paquistão e alguns países africanos", disse.
Em Mianmar, onde VPNs são ilegais, autoridades usam aplicativos falsos "como armadilhas" para identificar dissidentes. Em outros países, a polícia também verifica celulares para detectar o uso dessa tecnologia.
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